Diário do Grande ABC: O mercado de seguros na pandemia

A pandemia da Covid-19 impactou profundamente o mundo, devastando vidas e economias de forma impiedosa e democrática nos lugares em que o vírus encontrou terreno fértil para proliferação. Como não poderia deixar de ser, o mercado de seguros também foi um dos setores econômicos atingidos, pois, vindo de crescimento de mais de 12% em 2019, viu seus números despencarem para 1,3% em 2020. Ainda que a crise tenha assustado, e com razão, seguradoras, corretores, tomadores e segurados, pode-se dizer que, diante de retração de PIB (Produto Interno Bruto) de mais 4% no último ano, o número positivo do setor foi interpretado com animação e esperança de retomada. Isto porque, complexas como são, relações securitárias, devido ao período pandêmico, se reorganizaram e, por compensações mútuas, mantiveram o sistema vivo e operante.

Se de um lado os ramos de seguro auto, transportes, viagem e capitalização sofreram grande revés, uma vez que fortemente afetados pelo isolamento físico, deslocamento das relações de trabalho para fora dos eixos econômico-financeiros tradicionais e aumento dos índices de desemprego, por outro, os seguros de vida, saúde, patrimoniais, danos e responsabilidades experimentaram crescimento relevante, já que o foco de preocupação passou a ser a consciência sobre a vulnerabilidade da vida humana e as consequências de sua perda nas relações familiares e profissionais frente à incerteza da doença causada pelo vírus.

Já quanto à sinistralidade, ou seja, eventos cobertos e que efetivamente foram concretizados, análise é complementar e explica alguns números do mercado, em especial nos resultados financeiros positivos das seguradoras, pois em que pese tenha ocorrido a diminuição de contratações em alguns tipos securitários, número de indenizações deles decorrentes também apresentou relevante contração. Esta dinâmica pode ser ilustrada pelo seguro auto, que, embora tenha enfrentado considerável queda de arrecadação, viu também relevante baixa de acidentes e mortes a serem indenizados em razão da diminuição na circulação de pessoas e veículos. Nos casos de aumento de sinistralidade, por sua vez, houve aludido acompanhamento de arrecadação. As adequações que se mostraram necessárias para superar os desafios impostos pela Covid-19 acabaram por impulsionar crucial inovação do mercado, que, atreladas a arrojada administração atual da Susep (Superintendência de Seguros Privados), que vem flexibilizando e modernizando diversas normas e regramentos aplicáveis ao setor, acrescidas da expectativa de retomada da economia e vacinação da população, trazem otimismo ao presente ano de 2021, que já em seu primeiro semestre apresentou crescimento de 19,4% em relação ao mesmo período no ano passado.

Matéria publicada originalmente no site do Diário do Grande ABC em 13 de agosto de 2021.